12
Fev
09

Sonho.

Eu estava numa floresta bem verde, e haviam muitos caminhos. Eu sabia que eu queria ir para algum lugar específico, mas não sabia exatamente qual e nem que caminho tomar. Uma névoa branca me encobriu devagarinho e eu senti tudo se acalmar. Quando dei por mim, eu estava dividida em quatro, com estilos muito diferentes e cada uma ia tomando o seu caminho. Eu, a ‘verdadeira’ eu, ficava parada no mesmo lugar, envolta e gelada, esperando que alguma de mim encontrasse o tal caminho certo. Uma Juliana de vestido hippie saiu cantarolado uma música por um caminho que levava até um rio agitado e viu um menino sentado numa pedra, de violão na mão. Ele fazia rimas e colocava notas no violão – estendeu a mão para mim e quando a toquei pude ver além: nós dois deitados no capô do carro olhando as estrelas, ele cantando e me olhando fundo nos olhos, os poemas que ele me mandaria por e-mail. Quando as mãos se desencostaram, o rio já não era rio, porque tudo era cinza e eu via os copos de whisky dele quebrados pelo chão, os maços de cigarro entulhados no sofá e todas as incertezas que eu tinha sobre a fidelidade dele. Aquele não era o caminho certo. Uma outra Juliana, de calça jeans e camiseta, seguia prática por uma trilha acima da montanha -até deparar-se com um menino de óculos estudando algumas pedras. Era uma possibilidade séria, linear e calma – um relacionamento garantido e razoável, eram beijos amenos e telefonemas escassos. Era cinema dia de domingo. Ela tremeu com o frio da saudade da emoção. E com os sentimentos, o que faria? Ela não sabia ser rasa, nem pedra. Não era aquele caminho também. Uma Juliana de pijama comprido, andava sonâmbula no meio das flores, encontrou um grande e querido amigo, que quando a abraçou, fez-a se sentir bastante amada, protegida e desejada sendo exatamente o que ela era. Um abraço firme e gostoso, um sorriso generoso, uma mão carinhosa e a tranquilidade do que já é velho e conhecido. Eles dançariam na boate indie, veriam os filmes cults nas salas de arte e sairiam para comer tendo suas intermináveis conversas. O problema é que ela sabia não poder corresponder a beleza daquele sentimento dele. Melhor procurar outro caminho. Por fim, uma Juliana com trajes de mulher responsável, saia lápis e terninho, entrava numa caverna e se deparava com aquele caso-que-nunca-acaba-ou-se-resolve. Um bate-papo certeiro, a certeza de alguém que sempre a espera e sempre sabe o que dizer, o vazio de não sentir nada e só curtir os beijinhos e olhar naqueles olhos e não se afogar e sentir aquele toque e não estremecer nadinha. Eram as festas dançantes e as dirigidas em dia de sol. Todas as Julianas tinham feito caminhos errados. Todas evaporaram e a névoa se esvaiu. Eu sentei na terra, senti o cheiro da grama e chorei. Eu senti bem dentro de mim que todos aqueles caminhos eram parte da minha história. Eu podia estar acompanhada, mas não estava. Eu não sabia escolher porque eu não sabia lidar e viver com a humanidade daquelas pessoas – o cara que me fazia chorar de emoção no portão também era um galinha que olhava para outras ; o cara que sabia dançar comigo como ninguém também era ainda moleque e muitas vezes me magoava com seu egoísmo, o menino sério e inteligente era também muito impessoal e frio e até mesmo o menino que me compreendia como ninguém, acabava por beber demais ou brigar por excesso de ciúmes. O que eu podia fazer? Como escolher? Não existe homem certo. Nem caminho certo. Me dou conta disso e paro de chorar. Me dou conta disso e paro de sonhar. Abro os olhos e acordo sozinha outra vez. Vida real, ai vou eu.  Homem real, ai vou eu.

03
Fev
09

Todo o sentimento…

As pessoas são como um presente. Elas sempre vêm em diversos tipos de embrulhos: bonitos, coloridos, simples, machucados…até sem embrulhos. Os bem bonitos chegam como os presentes de natal ou de aniversário. Alguns desses presentes que nos chegam são fáceis de serem abertos, já outros têm o embrulho tão forte que temos que rasgar o papel até descobrir o que é o presente. A verdade é que já fui iludida com embrulhos bem bonitos, e me surpreendi bastante ao ver que o presente não era tão valioso como eu pensava ser. Por isso, percebi que por mais caprichoso que seja o embrulho, o valor real está no presente. É bom quando há a troca de presentes. Como é bonito compartilhar as surpresas que existem dentro dos embrulhos. Claro que os bons presentes também vêm recheados de dificuldades, obstáculos e incertezas, já que os encontros sempre nos causam dúvidas. Mas vamos lá. Vamos trocar os presentes. Vamos desembrulhar os presentes bons que existem na vida. Vamos abri-los para descobrir um amigo, um amor…na maioria dos presentes sempre existe um vale-surpresa que vale a pena ser usado.

Há os presentes que talvez nunca sejam abertos. Por isso, já me questionei a razão de alguns presentes ficarem tanto tempo embrulhados. Eu, por exemplo, sou um desses presentes. Não que exista o medo de rasgar o embrulho. Mas sempre há o receio de que o presente encontrado não supere a expectativa de quem o abriu.

A beleza real está no encontro: de quem abre o presente e se identifica com ele. Seria sempre bom se nos encantássemos pelo embrulho e nos apaixonássemos pelo presente. Porém, isso nem sempre é possível. Por isso, nós passamos a tentar abrir todos os embrulhos que encontramos pela vida a fora. Nos encantamos e desencantamos, até encontrar os verdadeiros presentes.

Ainda há tempo para mudar o que existe dentro do presente. Clarice Lispector já dizia que o “mude” deve acontecer, devagar…sem pressa. Para que possamos sentir cada mudança. Cada momento. Cada sensação. E cada maneira de ser nós mesmos. Por isso, a gente sempre se encontra pela vida.

“[...] Te encontro, com certeza 

Talvez num tempo da delicadeza

Onde não diremos nada

 Nada aconteceu

Apenas seguirei, como encantado

Ao lado teu”

 (Todo o sentimento – Chico Buarque e Cristóvão Bastos)

22
Jan
09

Solidão no meu dicionário.

Na minha vida, solidão significa que quando meus amigos me ligam e me chamam pra ir pra o teatro na vitória-depois o cinema no iguatemi- depois comer na pituba - depois dançar no rio vermelho - depois jogar master na barra - depois ver o sol nascer na praia da contorno eu vou sem precisar consultar/avisar a alguém sobre a minha programação, os meus horários, as minhas pongações e quem vai estar comigo. Mas solidão também significa que quando eu tô com insônia não tem ninguém pra esfregar a meia no meu pé, me beijar a testa e dizer que vai ficar tudo bem. Solidão também é, ainda, não ter que negociar o tempo todo : eu quero macarrão e você carne – vamos comer sushi ; eu quero praia e você montanha e acabamos indo ao sítio ; eu quero assistir uma comédia, você um filme de ação e acabamos saindo pra dançar e exemplos eternos. Solidão também é não ter com quem compartilhar um sonho (confesso, 80% dos meus sonhos românticos são puro besteirol ou estão ligados a combinação de camisas bobas, mas e daí? todo mundo tem direito de sonhar!). Solidão é não ter pra quem ligar pra falar sobre o dia, sobre os planos, sobre o desenvolver das coisas ou  sobre nada. Por outro lado, solidão é estar tanto com você mesmo que acaba-se descobrindo melhor quem somos nós, o que queremos da vida ou com o que conseguimos lidar. Solidão é não ter pra quem levar café na cama, fazer surpresa ou escolher presente fora de hora. Solidão são as danças que não se dançam em par ou o vinho não dividido. Solidão é excesso de si mesmo na mesma medida que é falta de outrém. Solidão é independência e carência, simultaneamente. Solidão é chegar num lugar maravilhoso e pensar: “caramba, como eu queria ter alguém especial com quem eu quisesse dividir isso.” Solidão é entender que  de tudo que eu escrevo aqui, muita gente só entende aos pedaços e acha coisas que não tem nada a ver, e eu me sinto tão incompreendidamente sozinha que só posso ansiar por alguém que simplesmente me acolha e me entenda – entenda inclusive, que eu não sou nem só  triste nem só feliz,mas sei ser a que chora no filme de amor e que dança michael jackson no meio do povo e nem liga. Solidão é não ter pra quem mandar e-mail com letra de música ou poesia que emociona. Solidão é poder ser eu mesma sem me preocupar se algo que eu faço pode vir a machucar alguém. Solidão é naquela hora triste, que dá vontade de desistir de tudo, não ter em quem pensar para achar que a vida vale a pena por algum motivo. Solidão é não ter minhas roupas, meu vocabulário ou meus amigos “regulados” por alguém. Solidão é triste, feliz, engraçado, surpreendente, faz parte, as vezes dou graças a Deus, em outras quero chorar, as vezes é eminência e em outras é escolha. Ou seja? Solidão é como tudo na vida – pode ser vista de muitos jeitos e de muitas cores, mas sempre depende de como nossos olhos escolhem (ou conseguem) enxergar.

 

 

[Para ler escutando "Só", de Tom Zé]

12
Jan
09

Blair Waldorf

Prazer, Blair Waldorf! Intolerante, vingativa, perfeccionista, provocativa, crítica, orgulhosa, briguenta, desconfiada, ciumenta, teimosa, sagaz, e outras coisitas mais. Esse é o meu lado negro, aliás, interessante. Por esses belos adjetivos, muitas coisas boas são perdidas no tempo. E outras coisas são evitadas. Evitadas? Como diria a minha sábia terapeuta: “O mínimo que vai acontecer é você chorar…”. Realmente, o mínimo que vai acontecer vai ser isso mesmo. Chorar, chorar, chorar, chorar…E é por isso, que a Blair aqui perde os curtos momentos de felicidade por querer “evitar”. Evitar: sofrer, chorar, ser magoada, desvalorizada. Isso tudo acontece, isso é a vida. E com todas essas “evitações”, evito ser feliz. Opa, opa. Quem evita ser feliz? Eu evitei por um tempo. Mas já percebi que evitar ser feliz não está com nada. Devemos sim, curtir os momentos, mesmo que eles sejam curtíssimos. Pelo menos fomos felizes ali, naquele instante. E deixamos de evitar o que é natural. Miss B é tão sagaz, que às vezes enxerga até o que ainda vai acontecer. Isso é péssimo. É chato ser esperta. Desculpe a falta de modéstia, mas é verdade. Antes eu não arriscaria ser feliz. Hoje, apareço até despojada demais para “ver” um velho amor que havia sido enterrado por mim. Será que o “tal” está ressuscitando? Vamos lá, vamos vê. Blair está me ensinando a arriscar, a ser provocativa e ver até onde o limite vai, ou não vai. B. não gosta de ser enganada, muito menos provocada. A fama percorre os quatro cantos de Upper East Side: a briguenta! Porém, não aquela “briguenta” que sai por aí brigando com todos e por nada! Miss B é briguenta, mas tem todo o fundamento. Se não querem confusão…tente não pisar em um dos 10000000 calos, ok? Só isso. É bem simples. Quem consegue passar por esse desafio já está guardado no cordãozinho de prata do meu pescoço! Ciúmes? Eu? Eu não. Ah! Nada crítica. Eu só falo a verdade. Não tenho culpa não. Não sou má. Eu SÓ sou assim, uma fofurinha! Quem não tem um lado assim: interessante?

 

Miss B quer que Chuck Bass só diga a verdade e deixe o orgulho de lado. Espero cenas dos próximos capítulos. Estou esperando viu Chuck Bass? Shut up and drive!

 

B.

02
Jan
09

O que eu também não entendo…

 

Agonia dessa minha absoluta falta de resolução, dessa mesma medida utilizada para mesurar a vontade de ter certeza e o pavor que eu tenho de ter certezas e me sentir imobilizada por elas. Não aceitação dessa vida com tanta falta de vida, tanta covardia perante as coisas, tanto desencontro com essa vontade de amor aventureiro. Bode desses caras que acham a gente “demais”; “o máximo”; “totalmente pra casar”; “maravilhosa” e se cagam de medo – porque se ficarem com a gente agora, é como se casassem agora, e aí nenhum fica mas todos prometem voltar, mas ainda falta muito tempo até eu começar a me considerar com idade pra casar. Sou um bom partido de coração partido? Eu sei o quanto dói isso.

Raiva de tanta cantada de homem comprometido. Nojo de tanta mulher achando que é o sonho consumível rebolando na direção correta, sem perceber que não passa de carne pendurada em cabide de açougue. Tenho raiva de quem pede só picanha, só alcatra, só maminha. Mas tenho ainda mais raiva de quem se submete a ser só esses pedaços. Ojeriza da transformação de “relação” para “negociação”. Raiva de encontrar exs e fazer cara de samambaia como se todos os nossos diálogos anteriores tivessem sido “oi, passa o Nescau?” ou “pois é, você viu que jogão o do palmeiras?” e não “te amo demais” ou “vai amor, mais forte, tá gostoso” ou como se todos os momentos tivessem sido apenas uma descidinha desconfortável pelo elevador ou uma colisão desastrada numa avenida – não foram, sabe? Se bem me lembro, acho que havia aquela conversa clichê de cumplicidade-cafuné no sofá-troca de segredos – intimidade… Raiva do que fizemos com isto depois que isto não é mais isto (ou angústia pelo que não soubemos fazer?). Vontade de vomitar de pavor e impaciência total pra esses meninos bombados e descamisados andando em bandos na micareta – queridos, vão para a biblioteca malhar a massa encefálica. Mais impaciência ainda de quem se acha a azeitoninha da empada porque tá “pegando” algum desses brutamontes neandertais. Raiva de quem “pega” alguém. Incompreensão absoluta dessa minha insistência de errar nas mesmas coisas sempre, de amar tanto algumas pessoas que nem ligam pra mim, nem sabem mais que dia é o meu aniversário, de não conseguir dar chances a quem pede chances. Incompreensão de mim mesma, vontade de me beliscar por me sentir inferior quando eu deveria me sentir confiante e de me sentir prepotente quando eu deveria ser simpática. Incompreensão de achar que todo esse lance de relacionamento e romantismos seja tão complexo e mirabolante e ver tanta gente fazendo soar (e acontecer) de forma tão simples…

 

 

 

O que desejo em 2009 é que, como dizem o Chico e a Gal nessa coisa linda que é samba do grande amor, a gente não mude de calçada quando apareça uma flor e nem dê risada do grande amor.

27
Dez
08

Eu nasci há dez mil anos atrás…

Eu estava aqui pensando no quanto tenho uma alma velha. Não sei se é bem “alma velha”. Talvez eu tenha nascido na década, no século errado. Não sei. Não sou adepta dessa tecnologia toda, desses amores promíscuos, dessa falta de compostura, dessa loucura que é o século XXI. O que é isso? Às vezes me sinto um peixinho fora d’água. Gosto de Beatles, gosto do frio, gosto dos amores platônicos, gosto de seguir meus princípios, queria morar no Château de Versailles e participar dos grandes bailes de gala, ou como diria um grande amigo: “Ter nascido índio”. Mas é bom frisar: índio aqui no Brasil, antes do descobrimento. Dá pra imaginar o quanto era gostosa essa liberdade perigosa? Sem trânsito, sem um mal-educado te xingando no carro ao lado, porque você é cautelosa. Sem tanta desigualdade. É claro que sei que os tempos eram outros, que havia outros tipos de problema. Mas eu queria só um pouquinho disso: liberdade.

 

Eu sou antagônica. Queria ser índia queria morar no Château de Versaillesna verdade, só acho que estou no tempo errado. Não posso escutar “I Want To Hold Your Hand” (Beatles). Parece que entro em um estado metafísico. É uma sensação gostosa, boa, feliz. Como se eu estivesse recordando os velhos tempos, tempos que não vivi. Que loucura! É algo inexplicável. Quem sabe um dia alguém me explique? Será que o sabidão Freud me explica?

 

Sinceramente, espero que eu mesma me ache nesse lago de confusões que eu mesma faço. Afinal, vocês já pararam pra pensar que nós mesmos fazemos nossas confusões, que nós somos os Zé’s, que nós, com a loucura dos outros também, construímos nossas próprias loucuras? Pois bem, somos os responsáveis por essas confusões todas.

 

Me perdi. Porque, eu, realmente, achava que era o “ser estranho” perdido nessa imensidão de mundo. Mas não. Eu só não sou igual aos outros. Não saí do mesmo molde. Gosto de coisas que nem todo jovem gosta, mas também tenho meu lado jovial. Afinal, o motor 2.0 está aqui pra ser ligado e usado.

 

Vamos passear pela vida!

23
Dez
08

Só mais um pouquinho de Beatles…?

Porque eu era uma menina e porque eu era uma idiota. Era só por isso que eu achava que você precisava usar um anel de compromisso. Era só por isso que eu achava que os sentimentos das pessoas cabiam em artefatos/objetos e só por isso que eu achava que pra eu me saber amada, todo mundo tinha que poder saber e validar que eu era mesmo amada através da leitura desses signos que a novela das oito coloca na nossa cabeça que são a representação, a estandartização, do amor. (leia-se: flores, chocolates, declarações no asfalto, ‘desligavocêprimeiro-ah, não, desliga você..!) Porque eu era uma idiota é que eu terminava tanto com você, transformando um relacionamento num jogo vicioso pra ver quem ama mais, quem sofre mais, quem dá mais – eu achava que o amor era uma coisa verificável, testável empiricamente, do tipo “opa, ele não foi embora, tá ali amuado, chorando, pediu pra voltar.. me ama” (eu sei também que a minha insegurança fazia com que isto acontecesse mais vezes do que o razoável ; se é que existe razoável para uma coisa dessas…). Hoje eu já sei que eu não gosto de leilão – eu sempre perco.

E só porque eu não sabia é que eu fui tão má companheira. Eu era uma idiota, num pensamento mediano, numa classe mediana, sendo uma pessoa mediana, porque eu era uma menina ainda, que não sabia nada da vida e por isso eu não podia estender a mão e entender como era difícil tirar a carteira de motorista, como era trabalhoso ter algumas responsabilidades, como era exaustivo dirigir de noite sozinho ou como era amalucador encarar um fim de semestre na faculdade. (E quando eu era essa mediana, tão mediana, você me amava tanto e muito… e hoje ,alguns livros do Saramago; outros do Gabriel Garcia Marquez; muitos livros de poesia de Vinicius, Drummond, Neruda, Bandeira, Leminski, Adélia Prado, Alice Ruiz ; muitos encontros com a sociologia, a antropologia, a psicanálise e a filosofia; seis filmes de Woody Allen; mais uns quatro do Tim Burton; muitos cds do Chico Buarque, mais uns outros tantos do Caetano, dos Novos Baianos, Lenine, Zeca Baleiro, Los Hermanos, Cazuza; carteira de motorista; carro na garagem; coragem de ter largado uma faculdade; studante de psicologia; assídua de trabalhos voluntários; com autonomia pra viajar com as amigas; sem horário de chegar em casa; dois anos de terapia depois; ninguém me ama. Você não me ama.Vai dizer que o mundo é lógico…? que merda que engraçado a vida é assim mesmo né… )

Porque eu era desse jeito é que eu não entendia como aquela música de Beatles no som do carro naquela viagem ou como aquela música de Beatles transcrita num depoimento no meu Orkut podia ser uma declaração de amor.

 

 

Hoje eu já não sou a mesma. Já fiz a prova do DETRAN. Já encarei quatro finais de semestre. Já dirigi em todos os horários possíveis pela madrugada. Já trabalhei. Já senti que alguém me fez tanto crer que eu tinha obrigação que eu tive de não ter mais amor. Já deixei alguém. Adoro ouvir Beatles enquanto dirijo pela estrada em dias ensolarados. Fiz isso hoje. E quando chegou na faixa oito, quando “Eight days a week” começou a tocar… Eu sorri feliz, achando a letra digna de um amor foda.

Eu queria que tivesse dado tempo de te pedir mais um pouquinho de Beatles… Mas se você não tivesse ido embora, talvez eu não tivesse descoberto nenhuma dessas coisas. Talvez eu não tivesse lido Bauman porque preferisse ficar no seu abraço. Talvez eu não tivesse ido tomar uma cerveja com gente que pensava tudo diferente de mim porque preferisse ficar no seu colo. Talvez eu não tivesse freqüentado tantos lugares antagônicos com tantas pessoas distintas, nem tivesse a oportunidade de conhecer diversos amores e diversas possibilidades de amar diferentes daquela forma que hoje faz eu me sentir tão idiota ao relembrar.

Eu queria não sentir tanta culpa pelo que eu era.. afinal, era o que eu podia ser! Eu queria não ter perdido os olhos doces e inocentes que gostavam de se interessar pelas coisas e pelas pessoas. Eu queria te dizer poucas e boas sobre o que é ser homem e sobre como um homem de verdade vai embora com dignidade, e mais ainda, com verdade. Acho que, durante muito tempo, eu quis dizer estas coisas. Tentar te responder uma certa carta. Mas só hoje, que não vale nada, que ela já vai amarelada na gaveta, que eu não tenho intenção nenhuma, que meu coração não dói mais – nem com as lembranças, nem quando a gente finge que não se conhece depois de tudo que já se viveu – é que essas palavras caem no papel, é que eu posso ser eu mesma, é que eu posso não dar a mínima a repercussão destas letrinhas. Ainda bem.

 

Que bom. Porque eu já estou mais do que atrasada para re-escrever outras histórias, com outros personagens e também para contar uns outros contos que também valeram a pena…

 

 

 

23
Dez
08

Zé diz…

Zé, o Ramalho, um sábio da solidão e dos mistérios do amor. E eu, realmente, concordo com ele, por isso, estou querendo descer da solidão e espalhar as coisas sobre um chão de giz. Por quê? Porque, eu quero, preciso disso. Quero porque cansei de lembrar de você, cansei de lembrar do que não vivemos, do que vivemos. Cansei de tudo. Não vou mais gastar meus pensamentos com essas besteiras. Até me acho auto-suficiente. Mas não é bem auto-suficiência. Talvez seja um: “Não preciso mais de você, goodbye!”. Então, por que não consigo parar de pensar em você? Por isso, que eu queria ser Zé. Ele é convicto, não gosta de confusões como eu. Ele tem coragem pra dizer que não vai beijar mais, gastando o batom. E o melhor, ainda diz que Freud explica. Preciso conhecer Zé melhor. Ele me entende sem ao menos me conhecer, é quase um Freud. Mas eu queria é saber “Quanto tempo o coração leva pra saber que o sinônimo de amar é sofrer?”. Mas, pelas surpresas que a vida e os amores têm me proporcionado, vou ficar letrada nesse assunto. Gosto de Zé. Ele tem me ensinado bastante com suas canções. 

Só achei que Zé foi muito romântico ao dizer que quem ama nunca sente medo de contar o seu segredo. Eu morro de medo. Na verdade, nem sei contar o meu segredo. Me ensina, Zé! Como o coração de uma mulher, o meu traz muitos segredos. Sinto até a vontade de revelá-los e ser uma pessoa mais transparente. Mas tenho medo. Medo de correr risco e ser feliz? Talvez. Medo da incerteza! Essa sim, é monstruosa. É como eu disse, Zé me entende mesmo…e eu queria simplesmente saber “quanto tempo falta para lhe esquecer?”. Nossa relação acabou como Zé contou: como um caramelo que chegasse ao fim. Tudo que é doce e bom, um dia acaba. Mas não foi tão doce. Acho que o caramelo até tinha umas partes amargas, como se tivesse passado do ponto. Esse amor passou do ponto, dos limites, do tempo. 

 Zé já dizia: Quem tem amor na vida, tem sorte. Tenho esperança. Esperança? É, soa um tanto quanto triste. Então, tenho a fé que terei a minha sorte. Logo, logo ela vai chegar. E aí, vou poder dizer onde a felicidade vai estar.

“No mais

Estou indo embora

No mais

Estou indo embora

No mais…”   (Zé Ramalho)