Porque eu era uma menina e porque eu era uma idiota. Era só por isso que eu achava que você precisava usar um anel de compromisso. Era só por isso que eu achava que os sentimentos das pessoas cabiam em artefatos/objetos e só por isso que eu achava que pra eu me saber amada, todo mundo tinha que poder saber e validar que eu era mesmo amada através da leitura desses signos que a novela das oito coloca na nossa cabeça que são a representação, a estandartização, do amor. (leia-se: flores, chocolates, declarações no asfalto, ‘desligavocêprimeiro-ah, não, desliga você..!) Porque eu era uma idiota é que eu terminava tanto com você, transformando um relacionamento num jogo vicioso pra ver quem ama mais, quem sofre mais, quem dá mais – eu achava que o amor era uma coisa verificável, testável empiricamente, do tipo “opa, ele não foi embora, tá ali amuado, chorando, pediu pra voltar.. me ama” (eu sei também que a minha insegurança fazia com que isto acontecesse mais vezes do que o razoável ; se é que existe razoável para uma coisa dessas…). Hoje eu já sei que eu não gosto de leilão – eu sempre perco.
E só porque eu não sabia é que eu fui tão má companheira. Eu era uma idiota, num pensamento mediano, numa classe mediana, sendo uma pessoa mediana, porque eu era uma menina ainda, que não sabia nada da vida e por isso eu não podia estender a mão e entender como era difícil tirar a carteira de motorista, como era trabalhoso ter algumas responsabilidades, como era exaustivo dirigir de noite sozinho ou como era amalucador encarar um fim de semestre na faculdade. (E quando eu era essa mediana, tão mediana, você me amava tanto e muito… e hoje ,alguns livros do Saramago; outros do Gabriel Garcia Marquez; muitos livros de poesia de Vinicius, Drummond, Neruda, Bandeira, Leminski, Adélia Prado, Alice Ruiz ; muitos encontros com a sociologia, a antropologia, a psicanálise e a filosofia; seis filmes de Woody Allen; mais uns quatro do Tim Burton; muitos cds do Chico Buarque, mais uns outros tantos do Caetano, dos Novos Baianos, Lenine, Zeca Baleiro, Los Hermanos, Cazuza; carteira de motorista; carro na garagem; coragem de ter largado uma faculdade; studante de psicologia; assídua de trabalhos voluntários; com autonomia pra viajar com as amigas; sem horário de chegar em casa; dois anos de terapia depois; ninguém me ama. Você não me ama.Vai dizer que o mundo é lógico…? que merda que engraçado a vida é assim mesmo né… )
Porque eu era desse jeito é que eu não entendia como aquela música de Beatles no som do carro naquela viagem ou como aquela música de Beatles transcrita num depoimento no meu Orkut podia ser uma declaração de amor.
Hoje eu já não sou a mesma. Já fiz a prova do DETRAN. Já encarei quatro finais de semestre. Já dirigi em todos os horários possíveis pela madrugada. Já trabalhei. Já senti que alguém me fez tanto crer que eu tinha obrigação que eu tive de não ter mais amor. Já deixei alguém. Adoro ouvir Beatles enquanto dirijo pela estrada em dias ensolarados. Fiz isso hoje. E quando chegou na faixa oito, quando “Eight days a week” começou a tocar… Eu sorri feliz, achando a letra digna de um amor foda.
Eu queria que tivesse dado tempo de te pedir mais um pouquinho de Beatles… Mas se você não tivesse ido embora, talvez eu não tivesse descoberto nenhuma dessas coisas. Talvez eu não tivesse lido Bauman porque preferisse ficar no seu abraço. Talvez eu não tivesse ido tomar uma cerveja com gente que pensava tudo diferente de mim porque preferisse ficar no seu colo. Talvez eu não tivesse freqüentado tantos lugares antagônicos com tantas pessoas distintas, nem tivesse a oportunidade de conhecer diversos amores e diversas possibilidades de amar diferentes daquela forma que hoje faz eu me sentir tão idiota ao relembrar.
Eu queria não sentir tanta culpa pelo que eu era.. afinal, era o que eu podia ser! Eu queria não ter perdido os olhos doces e inocentes que gostavam de se interessar pelas coisas e pelas pessoas. Eu queria te dizer poucas e boas sobre o que é ser homem e sobre como um homem de verdade vai embora com dignidade, e mais ainda, com verdade. Acho que, durante muito tempo, eu quis dizer estas coisas. Tentar te responder uma certa carta. Mas só hoje, que não vale nada, que ela já vai amarelada na gaveta, que eu não tenho intenção nenhuma, que meu coração não dói mais – nem com as lembranças, nem quando a gente finge que não se conhece depois de tudo que já se viveu – é que essas palavras caem no papel, é que eu posso ser eu mesma, é que eu posso não dar a mínima a repercussão destas letrinhas. Ainda bem.
Que bom. Porque eu já estou mais do que atrasada para re-escrever outras histórias, com outros personagens e também para contar uns outros contos que também valeram a pena…
O dom…
…de dizer o que quer! \o//
;***
Posso paparicar? Amei esse texto desde o dia em que li ele, amiga!
Agora, nem se fala né? Ao som dos Beatles
Essa nossa vida é mesmo uma “Comédia da vida privada”
E vamos aprendendo, sorrindo, chorando…
:***
é isso aew, viva a vida, curta bastante, erre, pratique o amor.
Eu acho que esta fase novela das 8 faz parte de qualquer adolescente. Se bem que a modinha hoje é Twilight e o amor entre humanos e vampiros (rsss), mas a novela das 8 (assim como qualquer outra) prega um amor muito romãntico e denso pros moldes de vida atuais. Eles colocam na nossa cabeça que devemos nos apaixonar, casar e ter filhos e não precisamos ter uma vida estruturada para isso acontecer, apenas temos que fazer e pronto.
Engraçado, lendo o seu texto eu também percebo o quanto mudei. No auge dos meus 16 anos, eu era um rockeiro fracassado que sonhava em ter uma banda (e tentei formar, sério), completamente desligado do mundo e com idéias anarquistas na cabeça. Eu vejo que mudei e sabe o que é mais legal disso tudo? O amadurecimento que adquiri, mas tudo isso só foi possível pelas coisas que vivi neste tempo de adolescência.
Eu acho que, de uma maneira indireta, o seu texto causou um pouco sobre isso, mais do que relembrar situações que você achava ser o amor, ou que lhe faziam acreditar que ele pudesse, de fato, existir.
beijão.
meus amores,
vocês mais uma vez me surpreendendo e é por isso que sou cada vez mais fã de vocês duas! o blog está muito bom e quero ver mais e mais textos aqui para que possamos desfrutar um pouco disso também.
estão de parabéns!
amo vocês
beijo ;*
Ju… essa letra tá sacanagem! Não to achando o meu óculos e por isso, nao consegui ler nem uma linhazinha!
Fica pra próxima!
Beijão.
O engraçado é que eu sou sua fã e nunca falaria mal de vc nem sobre coerão behaviorista. Quando começei a ler (leia-se antes eu amo amo amo amo amo os tais Beatles) achei assim: cara Ju precisa de terapia de preferência com Flora pra ficar mais Harebô, no fim do texto vc estava magnânima, perfeita, até lia meus pessamentos… mas eu…. euzinmha precisava de terapia Harebô, para não me insigmifaicar tanto perto d’ocê.
Um cheiro minha flor!
Juli Coelho
Ju, muito bom! Muito bom mesmo!!!
As vezes eu acho que vocês estão lendo meus sentimentos!
beijão!!!
eu leio todos os textos que você me manda e posta, mas é sempre como se eu nunca tivesse lido nada que você escreve, pq é sempre diferente. sempre surpreendente, pela 98129182921892ª vez, eu sou sua fã !
parabéns, cunha !
;*
eu discordo, parece sempre a mesma coisa nos textos.
é inegavel que vc sabe escrever, parabens. mas deixe a vida rolar, esqueça o que passou, siga em frente.
vc tinha vontade de dizer td isso? mas sera que vc viu que era criança e esqueceu que ele tambem podia ser?
e alem do mais é isso mesmo, as coisas acontecem na vida para podermos aprender, e ainda bem que vc vê isso!
;]